Angelo Rosa — Product Designer

Voltar ao blog

Navegação agêntica: quando o portfólio precisa ser legível para a IA

Publicado em

Rodei o Lighthouse no meu portfólio e encontrei uma categoria nova com nota crítica: navegação agêntica. O que ela avalia, o que faltava no meu site e por que isso muda o design.

Navegação agêntica: quando o portfólio precisa ser legível para a IA

Tenho o hábito de rodar o Lighthouse nos meus projetos de tempos em tempos. É a ferramenta do Google que dá notas de performance, acessibilidade, boas práticas e SEO. Da última vez, no meu próprio portfólio, apareceu uma categoria que eu nunca tinha visto: Navegação agêntica.

A nota era 29 no celular e 66 no computador. Um item novo, vermelho, justo no site que apresenta o meu trabalho. Fui entender o que era.

Relatório do Lighthouse no celular: a categoria Navegação agêntica circulada em vermelho, com 0 de 3 critérios, ao lado de Acessibilidade 90, Práticas recomendadas 96 e SEO 100

O que é navegação agêntica

"Agente" é o nome que se dá às IAs que não só respondem perguntas, mas agem: abrem sites, leem páginas, comparam informações, preenchem formulários e resumem o que encontraram para alguém. Pense num recrutador que pede a um assistente "analise o portfólio desta pessoa e me diga com que tipo de produto ela já trabalhou". Quem visita o site, nesse caso, é o agente.

A diferença importante para quem faz design: um agente não vê a interface como nós. Ele não interpreta um ícone de três tracinhos como menu, nem entende que um texto grande e em negrito é o título da página. Ele lê a estrutura: os nomes dos elementos, a hierarquia do conteúdo, o que é link e o que é botão, o que é imagem decorativa e o que é informação.

É a mesma camada que tecnologias assistivas, como os leitores de tela, usam há anos. A acessibilidade que muitas vezes tratamos como item de checklist passa a ser a porta de entrada do seu produto para uma nova categoria de visitantes.

Como a nota é formada

Hoje, o Lighthouse considera três critérios, com o mesmo peso, na navegação agêntica:

  1. A estrutura da página faz sentido para uma máquina? Todo botão tem nome, todo controle diz o que faz?

  2. Existe um llms.txt? É um arquivo simples, em texto, que funciona como uma apresentação do site para modelos de linguagem: quem é, do que se trata e quais são as páginas principais.

  3. O layout é estável durante o carregamento? Elementos que "pulam" de lugar atrapalham tanto a pessoa quanto o agente que tenta clicar em algo.

O próprio Google avisa que a categoria ainda está em desenvolvimento.

Os três critérios da nota de navegação agêntica: estrutura legível, llms.txt publicado e layout estável

Mesmo assim, os três critérios apontam para fundamentos que já valem hoje.

O que encontrei no meu portfólio

Um botão sem nome

No celular, o menu abre por um botão com ícone de hambúrguer. Visualmente, zero dúvida. Na estrutura da página, porém, era um botão sem nome nenhum, uma caixa muda.

É um caso clássico de affordance visual sem affordance semântica. Desenhamos o ícone, o estado de hover, o estado aberto, e esquecemos de dizer, em texto, o que aquele controle faz. No desktop o problema não aparecia porque o menu completo fica visível, e isso explica a diferença de nota entre as versões.

Revisando o resto do site com esse olhar, encontrei outros casos parecidos:

Revisão da estrutura do site com lupa nos elementos que os agentes leem

Um cartão de visita que não existia

Eu não tinha llms.txt. E havia um detalhe curioso: ao acessar o endereço onde o arquivo deveria estar, o site devolvia a própria página inicial. Para o teste, era como pedir um documento e receber um folder de outra coisa.

Gosto de pensar no llms.txt como um briefing do site para a IA: um resumo de quem sou e do que faço, a lista de projetos com cliente, ano e habilidades, as páginas institucionais e os artigos. É conteúdo, não código, e escrevê-lo bem é um exercício de arquitetura de informação.

Um layout que pulava

A home mostrava um skeleton enquanto carregava os textos. A intenção era boa, mas as proporções do skeleton não batiam com o conteúdo real: quando o texto chegava, os botões desciam. Os logos do carrossel também não tinham espaço reservado e empurravam o conteúdo ao aparecer.

É um lembrete de que skeleton é design. Ele precisa ter a forma do que vai substituir, senão vira fonte de instabilidade.

O problema que o relatório não mostrava

Corrigidos os três pontos, fiz uma pergunta que o Lighthouse não responde: o que um robô que não executa JavaScript enxerga no meu site?

Meu portfólio é uma aplicação React, construída com ajuda do Lovable. Nesse tipo de site, o conteúdo é "montado" no navegador depois que a página abre. Para uma pessoa, tudo aparece normalmente. Muitos robôs de IA e de redes sociais, porém, só leem a página no estado em que ela chega do servidor, sem montar nada.

O que eles recebiam era uma página vazia, com o título "Projeto Web Base" e a imagem de compartilhamento do template original. Nenhum projeto, nenhum cliente, nenhum contato. Era como ter uma vitrine bem montada, mas com a porta de serviço dando para uma sala sem nada.

Isso afetava inclusive o preview dos links compartilhados no LinkedIn e no WhatsApp, justamente onde um portfólio mais circula.

O que mudou

Com a ajuda de uma IA de código para a implementação, fizemos as mudanças sem alterar o visual do site e sem quebrar meu fluxo de edição no Lovable:

Na interface

Na camada que a IA lê

No peso das páginas

Nesse processo, descobri que as capas dos cases eram imagens de mais de 1 MB exibidas em cards de 400 pixels. Com a otimização automática, cada capa caiu de até 1,3 MB para cerca de 16 KB, sem perda visível. Uma página leve é boa para quem acessa pelo celular e também para um agente com tempo limitado para ler o site.

O resultado

Mais do que as notas, o site passou a comunicar a mesma coisa para os dois públicos: pessoas e agentes.

Comparativo antes e depois: navegação agêntica de 29 e 66 para 100, acessibilidade de 90 para 100 e robôs sem JavaScript recebendo o portfólio completo

O que isso muda no nosso trabalho

Saio desse processo com algumas convicções que valem para qualquer produto digital, não só para portfólios.

A navegação agêntica ainda está em evolução, mas o recado já está dado: nossos produtos agora também são lidos por agentes. E, curiosamente, a melhor forma de se preparar para isso é voltar ao básico que a acessibilidade sempre defendeu.